Solenidade da Epifania do Senhor – 2021

Solenidade da Epifania do Senhor

Leituras: Is 60,1-6; Sl 71; Ef 3,2-3ª.5-6; Mt 2,1-12

Tema-mensagem: Aos magos e, com eles, a toda humanidade, a todos nós e a toda criação, Jesus se revela para que, de joelhos, O veneremos e O adoremos como a Estrela que nos orienta e salva. 

Introdução 

Após sua manifestação aos judeus, Jesus, hoje, ao encerrarmos o Tempo do Natal, faz sua manifestação também para todos os povos e nações, representados pelos Três Reis Magos. Guiados por uma misteriosa estrela que lhes apareceu no oriente, se põem a caminho para encontrar seu verdadeiro guia e rei: o Menino Jesus, deitado no presépio.

1. A Epifania na visão dos profetas (Is 60,1-6)


Desde tempos antigos, a Igreja chama esta manifestação de “Epifania”. Mais que manifestação, Epifania expressa o movimento de Deus que, irrompendo do alto de sua grandeza, glória e majestade, se humilha, se apequena a fim de ingressar no horizonte e na história dos homens, tornando-se assim a estrela de seus passos e o sentido de sua vida.

Quem, ao longo da história judaica, vê com clareza o movimento desta paixão são os profetas. Na primeira leitura de hoje, Isaías fala de Jerusalém, que é iluminada por Deus e que, por sua vez e por isso, ilumina todo o mundo. Se, antes os habitantes de Jerusalém se queixavam porque esperavam a luz, e, no entanto, só encontravam as trevas ou porque buscavam a claridade, e, no entanto, tinham que caminhar na escuridão (Cf. Is 59,9b), agora ouvem a exortação: Põe-te de pé e torna-te luz, Jerusalém, por que está chegando a tua luz: a glória do Senhor se levantou sobre ti (Is 60,1). Assim, a partir de Jerusalém, a glória do Senhor passa a iluminar toda terra, nações, povos e reis (Cf. Is 60, 2-3). Deus será o esplendor de Jerusalém e sua luz perene. Seus filhos e filhas retornam do exílio. Mas, com eles, atraídos para o Monte Santo e o Templo, vêm as nações, que afluem a Jerusalém, trazendo consigo seus tesouros, ouro e incenso (Is 60,6a). Assim, também os gentios se tornarão mensageiros dos louvores do Senhor (Is 60,6b).

2. Um reino de justiça e de paz (Sl 71)

Quem saúda e canta o reinado universal do futuro Rei, o Messias (o Ungido), que rege com justiça, paz e cuidado em favor dos pobres e fracos, rejeitados e excluídos, é o salmista da Missa de hoje. Proclama que o Reino Dele será eterno e universal, que todos os reis se prosternarão diante dele, todas as nações o servirão. Agostinho, meditando esse salmo, pensa na paz que emana da força do Cristo. Paz, que significa não tanto ausência de conflitos, mas empenho na busca da unidade, da comunhão. Assim, a paz de uma cidade é o empenho de seus cidadãos todos, santos e pecadores, fracos e fortes, a fim de viverem concordes e unidos nas e com suas diferenças. Da mesma forma a paz de uma alma é a unidade, a harmonia, o acordo de suas forças, a fraternidade entre o lobo e o cordeiro que existem dentro de nós (Cf. Lobo de Gúbio, Atos 23, Fi 21). Por isso, a potência do Rei-Menino não é outra do que a não-violência, a não-coação, a vigência da graça da doação, da charis. Seu reino eterno e universal é a regência e a vigência da potência do amor, da misericórdia, que faz ressurgir a cordialidade da vida, o Reino dos céus.

3. O mistério de Deus acerca dos pagãos (Ef 3,2-3ª.5-6)

Na epístola de hoje, Paulo fala com alegria, gratidão, e até com emoção, da honra com a qual Deus o distinguiu, chamando-o para a graça de realizar o plano Dele a respeito dos efésios: que eles e todos os pagãos são admitidos à mesma herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus Cristo, por meio do Evangelho (Ef 3,6). Este é o mistério, o plano, o desígnio, o desejo que Deus guardou desde toda a eternidade e que, agora, depois de revelado por Cristo, é confiado a ele, Paulo, e aos demais santos Apóstolos e profetas. Que honra, que dignidade, que responsabilidade, pensa e sente Paulo!

 Trata-se de reunir numa unidade as duas porções da humanidade inteira. então cindida entre judeus (os santos, os eleitos) e gentios (os impuros, os “cães”, os “porcos”). Agora, Paulo, com a aparição de Jesus Cristo, vê todos os homens, de todos os povos da terra, reunidos pela fé, como herdeiros da mesma bênção que fora confiada a Abraão; também eles são herdeiros do Reino de Deus, por se tornarem, também eles, filhos de Deus, formando, assim, todos juntos, o único Povo de Deus.

Paulo, tocado pela luz do Evangelho, começa a ver o que então – pela cegueira do seu fanatismo pela lei e pelas suas tradições – não podia ver: que os pagãos são seus irmãos, outrora prometidos por Jahvé a Abraão, uma descendência incontável, gerada não segundo a carne, mas pela fecundidade da fé, e por isso, comparada à multidão das estrelas (São Leão Magno, Segunda Leitura do Ofício das Leituras da Solenidade da Epifania).

Quem, 13 séculos mais tarde, também se comove ao contemplar este mistério foi São Francisco. Movido por este mesmo espírito – a universalidade da fé e do amor de Cristo – se sentiu levado a inaugurar a “Vida consagrada ativa”, uma Vida mendicante, peregrina, que faz do mundo o seu convento. Foi o júbilo, o fogo do querigma cristão que o levou a empreender inúmeras viagens apostólicas, destacando-se entre elas a viagem ao norte da África e à Terra Santa. Foi nesta viagem que se deu o famoso encontro com o Sultão e o início da Cruzada do Amor, em substituição às Cruzadas do ódio e das armas contra os sarracenos, fazendo-os de inimigos em amigos e irmãos.      

4. Os misteriosos magos e sua mensagem (Mt 2,1-12)

Todo este insondável mistério, que tanto encantara Paulo e toda a Igreja primitiva, nos chega de modo diverso e admirável pelo Evangelho de São Mateus, com a narrativa da misteriosa visita dos não menos misteriosos magos ao Menino Jesus. O Grande Rei, que o universo não pode conter, quis caber como menino deitado numa manjedoura de estrebaria, longe de Jerusalém e do Templo sagrado. Tudo muito estranho! Não se manifesta aos escribas e sacerdotes, aos maiorais e poderosos, mas aos menores, pobres e rudes pastores da Judeia, a estrangeiros e gentios, que o Evangelho chama de “Magos” (mágoi).

4.1. Judeus e gentios reunidos num único e novo Povo de Deus

Segundo a narrativa do nascimento de Jesus, os pastores representam o povo judeu, os que são de perto, os familiares; enquanto os magos representam os povos gentios, os que são de longe, os estranhos. Dessas duas humanidades, a judaica e a pagã, Cristo veio fazer, inaugurar, uma só humanidade. É o que podemos perceber numa das famosas antífonas intituladas de “Ó”, recitada na semana que antecede ao Natal: Ó rei das gentes e desejado das nações e pedra angular delas, que fazes de judeus e gentios uma unidade: vem e salva o homem que formaste do limo (Vésperas, 22 de Dezembro).

Os judeus buscavam o poder de Deus. Já os gentios – os gregos – queriam a sabedoria. Mas, ambos precisavam converter-se. Os judeus precisavam converter-se para a fraqueza do Crucificado como o verdadeiro poder de Deus. Já os pagãos precisavam acolher a loucura da Cruz como a verdadeira sabedoria, muito mais sábia que a sabedoria dos homens. Desse modo, como observa Agostinho, o caminho da salvação, para os judeus, passava por assumir o ser pecador e, para os gregos, pelo assumir a própria ignorância, ao dar o salto da fé. Judeus não podiam confiar na sua justiça e gregos na sua sabedoria. Tudo isso, para que nenhum poderoso se ensoberbecesse e nenhum fraco se desesperasse, disse Agostinho.

Distantes e estrangeiros, tornam-se os primeiros “apóstolos” do Messias junto aos seus próximos e compatriotas. Agostinho vê neles o espírito que anima o verdadeiro crente: anunciam, mas também questionam, creem, mas também buscam, caminham na fé, mas também desejam ver. O nascimento do verdadeiro Rei deste mundo fez brilhar a estrela que até então estava escondida no coração de cada homem: a luz que ilumina todo homem que vem a este mundo (Jo 1,9).

4.2. O alvoroço e a pseudo união dos anti-Cristos

Ao contrário dos magos, que desejavam encontrar e ver o Redentor, Herodes temia encontrar e ver um concorrente e adversário dele e de Roma (do Mundo). Por isso, quando ouve falar do nascimento daquele Menino, não apenas se perturba, mas, de imediato, decide exterminar ainda criança, este Rei intruso, e estranho. Mas, os temores de Herodes são vãos, diz São Leão Magno. O reino de Herodes, a Judeia, sim, mesmo o império romano, era por demais pequeno e estreito para que o Cristo, o Rei do Universo, o ambicionasse e quisesse disputá-lo com ele.

O nascimento do Menino Deus, da Paz e da humildade, embaraça os poderosos e soberbos desse mundo. Dá-se então o inusitado. Temerosos todos esses de perderem o mando, eles, que antes se combatiam, agora se unem. Se até então estavam em lados opostos, estão, agora, juntos a fim de combater o indefeso, esboçando-se, assim, a cena da paixão: os inimigos se deram as mãos para combater o pseudo inimigo comum – o Cristo, o inerme e inocente Jesus.

Ambíguo é o comportamento de Herodes, dos sacerdotes e dos escribas. Consultam as Escrituras. Mas, creem nelas? Se creem, por que não a tomam a sério? Se não creem, por que as consultam? O Pseudo-Crisóstomo esclarece: os pecadores nunca creem totalmente naquilo que creem. Creem, descrendo. Creem, mas não vivem segundo a fé que professam. Agostinho compara os sacerdotes e escribas com as placas das estradas. Elas apontam o caminho, mas elas mesmas permanecem paradas e, por vezes, sujas e deterioradas. São homens que trabalham e se doam muito para a salvação dos outros, mas que, na verdade, eles mesmos não creem e por isso põem-se a perder a si mesmos. São apenas funcionários, mas não fiéis, crentes, religiosos.

O diálogo de Herodes com os magos é cheio de soberba e de astúcia. Fala com eles em segredo, temendo que os escribas e sacerdotes se alegrassem com a mensagem do nascimento do Messias. Finge-se piedoso, mas debaixo do manto da piedade afia o punhal para matar o rei dos Judeus recém-nascido.

4.3. A estrela

Ao entrar nesse ambiente, a estrela se apagou e só voltou a mostrar seu brilho quando os magos saíram de Jerusalém, a cidade-luz que se tornara trevas. E assim, aos poucos, ela foi conduzindo-os a Belém. Louvável é a obediência destes magos! Deixaram-se conduzir pelo maravilhoso, mas ao mesmo tempo emblemático sinal celeste. Levados a Belém, ali se depararam com o mistério. Pelos argumentos da razão nada compreendiam, mas pela luz da fé sentiam e viam que estavam diante de um novo Sol, proclamado, depois, por Zacarias como o Sol Nascente, o Sol de Justiça, que nos veio visitar, para nos iluminar, para nos tirar das trevas da ignorância e do pecado e da sombra da morte (Lc 1,67ss). Assim, como o astro rei da natureza é precedido pela Estrela da Manhã, também o verdadeiro Sol da humanidade se manifesta precedido de uma estrela. O deter-se da estrela diz claramente: não precisam mais procurar! Eis aqui o Rei desejado, esperado, amado! Agora bastava reverenciá-lo e adorá-lo.

 A majestade do menino resplandecia em seus corações. Eles viam com os olhos não da carne, mas do espírito. Em vez de se escandalizarem, creram. Os antigos chamavam o Menino Jesus de “Divino Infante”. Infante, literalmente, significa, “aquele que não fala”, ou melhor que fala pela “não-fala”, pelo silêncio, como já profetizara Isaias: Não vociferará nem levantará a mão e não fará ouvir sua voz (Is 42,2). E será assim, pelo silêncio que depois apaziguará o vento impetuoso do mar bravio, salvará a pecadora pública das garras dos fariseus, morrerá na Cruz e entrará para a Vida eterna.

4.4. Os magos e seus dons

Os dons dos magos querem significar que ali, na pobreza, na pequenez e humildade do Menino estava um grande mistério, maior que todas as riquezas deste mundo. O ouro, a realeza do Menino, o incenso, a santidade divina e a mirra, sua mortalidade. Enquanto abrem os seus tesouros, deixam sair do fundo de seus corações a confissão de fé, diz uma glosa medieval. Confessam-no Rei, Deus e homem. Nós também podemos oferecer-lhe ouro se, e quando, deixarmos resplandecer em nós e através de nós a sabedoria (Cf. Pr 21,20); incenso, se e quando, pela oração, deixarmos exalar o odor de suave fragrância da adoração de Deus; mirra, se e quando assumirmos a finitude de nossa mortalidade, como finitude agraciada e não como finitude desgraçada.

Em “Das cinco Considerações sobre os Estigmas de São Francisco de Assis” (Consideração 3), lemos como Frei Leão testemunhou, à meia distância, um misterioso encontro entre São Francisco e Jesus Cristo, sobre o Monte Alverne. Frei Leão fora sorrateiramente espiar o que acontecia com São Francisco no meio da selva. Ouvia, então, São Francisco dizer várias vezes: ‘Quem és tu, ó dulcíssimo Deus meu? E quem sou eu, verme vilíssimo e inútil servo teu?’ (CCE 3,16). Leão, embora severamente advertido por Francisco, por causa de seu atrevimento, ousou pedir-lhe que explicasse o sentido dessas palavras. O Pobrezinho, então, lhe disse:

Sabe, Frei ovelhinha de Jesus Cristo, que quando eu dizia aquelas palavras que ouviste, então eram mostrados à minha alma dois lumes: um da inteligência e conhecimento do Criador e outro do conhecimento de mim mesmo. Quando eu dizia: ‘Quem és tu, dulcíssimo Deus meu’, então eu estava num lume de contemplação, no qual via o abismo da infinita bondade e sapiência e poder de Deus: e quando dizia: ‘Quem és tu, Senhor de infinita bondade e sapiência e poder, que te dignas visitar-me a mim que sou um vil verme abominável?’ E naquela flama que viste estava Deus; o qual naquela espécie me falava, como antigamente tinha falado a Moisés. E entre outras coisas que me disse, pediu-me que lhe fizesse três dons, e eu lhe respondia: ‘Senhor meu, sou todo teu: tu sabes bem que só tenho o hábito e a corda e os panos das bragas, e ainda estas três coisas são tuas: que posso, pois, oferecer e dar à tua majestade?’ Então, Deus me disse: ‘Procura no regaço e oferece-me o que encontrares’. Procurei e encontrei uma bola de ouro e ofereci a Deus; e assim fiz por três vezes, segundo Deus me ordenou por três vezes: e depois me ajoelhei três vezes e bendisse e agradeci a Deus, o qual me havia dado o que ofereci. E imediatamente me foi dado a entender que aquelas três oferendas significavam a santa obediência, a altíssima pobreza e a esplendidíssima castidade; as quais Deus, por sua graça, me concedeu observar tão perfeitamente, que de nada me acusa a consciência. E como me viste meter as mãos no regaço e oferecer a Deus estas três virtudes, significadas por aquelas bolas de ouro, as quais Deus me tinha posto no regaço; assim Deus deu virtudes à minha alma, que por todos os bens e por todas as graças que me concedeu pela sua santíssima bondade, eu sempre com o coração e com a boca o louvo e engrandeço. Estas são as palavras as quais ouviste, e o levantar três vezes as mãos, que tu viste’ (Idem, 19-28). 

Como os Magos e São Francisco, também nós somos convidados a dar, sempre de novo, a Cristo, as virtudes e dons e frutos mesmos do Espírito Santo, que ele nos deu. Tudo o que damos a Ele é em forma de restituição. E somos convidados a restituir todo o bem que ele nos concede com louvor e gratidão. Assim, também nós podemos dizer à sua Majestade: Quem és tu, ó dulcíssimo Deus meu? E quem sou eu, verme vilíssimo e inútil servo teu?

Conclusão

A malícia de Herodes não levou a melhor. Os magos voltaram às suas terras, passando por outro caminho. Quem tem a experiência do encontro com o Menino se transforma. Não caminha pelos mesmos caminhos de outrora. Não conhece outro caminho do que o Menino mesmo. Tudo isso porque a estrela do Menino não estava mais fora, diante de seus olhos, mas no coração deles, iluminando-os interiormente, até o fim, até chegarem à verdadeira Pátria, a Pátria celeste.

A visão de Isaías, acerca da universalidade do Reino de Deus, tonou-se realidade com o nascimento do Menino Deus, encontrado pelos Reis Magos, no presépio de Belém. Assim, Ele passou a ser reconhecido como a Luz dos povos. E é assim – como a “Luz dos Povos” (Cf. Lumen Gentium) – que também a Igreja se compreende hoje. A luz da Igreja, porém, é uma luz recebida, não gerada por ela, como o explicou muito bem o Papa Francisco com a comparação do sol e da lua: a Igreja é misterium lunis e Jesus Cristo misterium solis. Ou seja, se a Igreja, a exemplo da lua, possui uma grande luminosidade é porque ela a recebe do Sol Jesus Cristo.

Nos últimos séculos era muito comum a Igreja ver e tratar os ateus e membros de outras Igrejas e Religiões como inimigos, com os quais não devíamos manter nenhuma relação ou, pior ainda, que devíamos combatê-los e exterminá-los como inimigos. Desde o Vaticano II, inspirado pelo franciscano São João XXIII, o espírito e a prática estão mudando. Talvez, possamos ou devamos parafrasear nosso atual Papa Francisco: Saiamos, saiamos não para combater quem quer que seja, mas, a exemplo de São Francisco, para ver, encontrar o Menino Deus e Rei escondido no coração de cada humana criatura, mesmo aqueles ou aquelas que nos ofendem e agridem a modo de inimigos, pois, na verdade, são nossos verdadeiros amigos e irmãos porque também eles nascidos do mesmo Pai (São Francisco).