33º Domingo do TC – Ano B – 2018

33º Domingo do TC – Ano B – 2018
18/11/2018
Pistas homilético-franciscanas

Leituras: Dn 12,1-3; Sl 15 (16) 5.8.9-10.11(R/.1a); Hb 10,11-14.18; Mc 13,24-32

Tema-mensagem: Assim como um dia Cristo veio para iniciar o Reino de Deus, sua obra de salvação, no fim dos tempos voltará para levá-los à sua consumação

Sentimento: temor e reverência

Introdução
O fim do ano litúrgico, que se inicia neste domingo, proporciona à Igreja meditar e celebrar o fim dos tempos, isto é, o sentido de toda a história, de toda a humanidade e de toda a criação. Poderíamos chamar este domingo de “O Domingo do fim do mundo”, “Domingo da escatologia evangélica” ou melhor, o “Domingo dos Novíssimos”.

1. Uma profecia acerca da vida eterna e da ressurreição
Quem nos introduz neste mistério, embora ainda um tanto veladamente, é um pequenino trecho do profeta Daniel. Pequeno, mas muito importante e precioso por causa do conteúdo de sua revelação. Pois pela primeira vez, em todo o Antigo Testamento, nos é assegurada, com a garantia de uma revelação divina, a existência da vida eterna e da ressurreição dos mortos.
O nome Daniel, que em hebraico, significa “Deus é meu juízo”, nos leva à contemplação e à grata celebração deste mistério, tão diferente do juízo humano. O juízo divino se expressa de dois modos. Se, à semelhança do médico, de um lado ele condena a doença, o pecado, por outro ele salva o doente, o crente que, pela fé recebe em si o vigor da justiça divina. “Deus é meu juízo”, neste sentido, é um nome que expressa esperança na salvação divina, não obstante todas as vicissitudes e peripécias da história, em que a injustiça ameaça arruinar o projeto do Reino de Deus.
O personagem do livro, que leva este nome, tem como missão mostrar que esta confiança no juízo/salvação de Deus não é em vão, não obstante o impor-se dos jugos dos imperialismos, sejam eles quais forem, venham de onde vierem: se de Nabudonosor, no tempo do exílio babilônico; ou se de Antíoco, no tempo da colonização grega. Tudo isto é secundário para o teor de fé e de revelação do livro. Nos tempos de angústia o crente pode se fiar do juízo de Deus. O homem não tem a palavra inaugural nem a palavra final, definitiva, da história. Esta pertence a Deus.
Muitos são os que, no combate pelo Reino de Deus, foram e são perseguidos. Muitos são “os que dormem no pó da terra” (Dn 121) em decorrência dessa perseguição. Por isso, nos tempos da resistência dos Macabeus, tornou-se mais premente, no meio do povo de Israel, a questão sobre o destino final destes fieis que viveram e tombaram no testemunho da fé. Seriam eles recompensados por tal fidelidade? Outrora os crentes de Israel esperavam recompensas terrenas… A estes, porém até estas lhes foram negadas. Seria, então, de se esperar recompensas não terrenas? Mas, o que é justo, permitido ao crente esperar? A revelação divina contida neste livro de Daniel diz que é permitido ao crente esperar a salvação que vem de Deus, mesmo quando a morte parece ter fechado toda a esperança. Esperar contra toda a esperança – este é o ensinamento dos crentes dos tempos passados, dirá, posteriormente, o autor da Epístola aos Hebreus.
O livro de Daniel – “Deus é meu Juízo” – diz, pois, que esta esperança não retrocede e não se abate ante a morte. Trata-se de uma esperança até então inusitada para os homens de Israel: “Nesse tempo, teu povo será salvo, todos os que se acharem inscritos no Livro da Vida. Muitos dos que dormem no pó da terra, despertarão para a vida eterna, outros para o opróbrio eterno”. Nascia, assim, entre o Povo de Deus a fé, a esperança na vida eterna e na ressurreição dos mortos.
Cristo, mais tarde, também usará o eufemismo do sono para explicar que a aparente morte de Lázaro e da menina, filha de Jairo, é um prenúncio da ressurreição futura. Ou seja, a morte é apenas um sono que aguarda o glorioso despertar em Deus e para Deus.
A revelação fala em despertar para a vida, mas nada diz acerca do seu conteúdo ou da felicidade eterna dos ressuscitados. Apenas diz que “brilharão como o firmamento… brilharão como as estrelas por toda a eternidade”. A revelação plena acerca da vida após morte ficará para a Boa Nova de Jesus.

2. O único sacrifício de Cristo
Como nos domingos anteriores, a segunda leitura de hoje continua sendo tirada da Carta aos Hebreus. E, novamente, o autor tem como objetivo mostrar a supremacia incomparável da autoridade do sacrifício de Cristo em comparação com todos os sacrifícios do sacerdócio da Antiga Aliança. Neste domingo, ou melhor neste trecho, a argumentação gira rem torno da multiplicidade dos sacrifícios judaicos e da unicidade do sacrifício de Cristo. A argumentação se divide em duas considerações.
Primeiramente, o autor mostra que os sacerdotes da Antiga Aliança não têm repouso em seu ofício sacerdotal: sempre de novo têm de realizar os sacrifícios expiatórios tanto para si como para os outros. Trata-se, portanto de uma oferta que nunca termina e até certo ponto infrutífera. Cristo, ao contrário, tendo oferecido uma única vez seu sacrifício “assentou-se à direita de Deus Pai”. Seu sacrifício se deu uma vez por todas. “Estar assentado” significa que Ele completou sua obra, levando-a até sua consumação de modo que não há mais necessidade de repeti-la: seu sacrifício fora perfeito.
A segunda argumentação, gira em torno do único sacrifício. Com uma única oferta Cristo mereceu o perdão, a reconciliação de uma vez por todas, para todos e para todo o sempre. Enquanto isso, os sacrifícios levíticos, passavam os anos e os séculos, deviam sempre partir do começo. Enfim, seu sacrifício era de uma eficácia passageira, provisória, deixando seus fiéis sempre afastados de Deus.
Ao contrário, o sacrifício de Cristo purificou seu povo de todos os seus pecados colocando-o de novo em sua justa e devida relação com Deus: a de filho querido. A consequência inevitável é que devem cessar, portanto todos os sacrifícios prescritos pela lei. Pois, se a remissão de todos os pecados já se efetivou uma vez por todas e para todos, seria uma ofensa ao sacrifício de Cristo na Cruz buscar a remissão por outros sacrifícios. Daí a conclusão: “De fato, com esta única oferenda, levou à perfeição definitiva os que ele santifica. Ora, onde existe o perdão, já não se faz oferenda pelo pecado”.

3. Então verão o Filho do Homem vindo nas nuvens
O Evangelho de hoje, tirado de Marcos, faz parte do famoso discurso (um dos últimos) de Jesus acerca da destruição do templo. Sua linguagem, com base em textos do Antigo Testamento, é inteiramente apocalíptica em sua forma, e escatológica em seu conteúdo.

3.1. Do “mysterium tremendum” (mistério que faz tremer).
A perícope começa com uma cena realmente apocalíptica, aparentemente tenebrosa: “Naqueles dias, depois da grande tribulação, o sol vai se escurecer e a lua não brilhará mais… e as forças do céu serão abaladas”. A cena é grandiosa porque grande é o mistério e admirável a mensagem aos quais ela quer apontar: o “mysterium tremendum” (mistério que faz temer e tremer), que concerne ao “Dies irae” (dia da ira, isto é, dia do juízo divino).
São Beda diz que o obscurecimento dos astros se dará porque a luz do Juiz Supremo se manifestará e, meditando acerca do abalo “das potestades celestes”, lança a pergunta: que farão as tábuas quando as colunas tremem? Que fará o arbusto do deserto quando o cedro do paraíso se dobra? Assim, se o que há de mais elevado e sublime nos céus (sol, lua, estrelas, forças angélicas) tremem, como não deveriam temer e tremer os homens da terra?
O homem crente é aquele que vive em temor e tremor, isto é, em reverência e veneração para com o mistério de Deus – que não é apenas um “mysterium fascinans” (mistério fascinante), mas também um “mysterium tremendum” (mistério que faz tremer).
Em nossos tempos, quando não crentes e crentes, tomados e dominados pelo fascínio dos bens passageiros, do consumo imediatista, banimos o sentido do mistério, estas palavras podem soar estranhas e espetaculosas. No entanto, elas falam da seriedade do relacionamento do homem para com o mistério divino, que é a realidade última da vida e da história humana.

3.2. Jesus, o homem novo aparecerá sobre as nuvens
Feito o anúncio do fim deste mundo, Jesus chega à sua conclusão, a respeito da sua parousia (retorno à presença e manifestação): “Então, verão o Filho do Homem voltar sobre as nuvens com grande poder e glória. Ele enviará os anjos, e reunirá os seus escolhidos dos quatro ventos, desde a extremidade da terra até a extremidade do céu”.
No livro dos Atos dos Apóstolos, na narração da ascensão do Senhor, lemos que um anjo disse aos Apóstolos estupefatos: “Homens da Galileia, por que ficais aí a olhar para o céu? Esse Jesus que acaba de vos ser arrebatado para o céu voltará do mesmo modo que o vistes subir para o céu” (At 1, 11). Assim como subiu entre as nuvens, retornará entre as nuvens.
As nuvens evocam o mistério celeste. São como que o véu que velam e revelam o mistério do Filho do Homem. São como que o horizonte. O horizonte une e divide, ao mesmo tempo, o visível e o invisível, o presente e o ausente. Os discípulos de Cristo tiveram que, primeiramente, aprender a viver na sua presença. Depois, tiveram que aprender a viver na sua ausência. A experiência da ausência de Cristo (ou de sua presença apenas velada – em mistério) marca profundamente a vida cristã nos primórdios da vida cristã. Esta ausência, porém, mais que uma mera privação foi sentida como a contenção do mistério. Assim, a recusa da presença desvelada de Cristo, mais que uma mera negação era uma forma de sua doação. Nela Cristo se doava na subtração e retração do mistério.
Deste modo, o tempo da história é o tempo da ambiguidade desta recusa que é doação; tempo em que o discípulo de Cristo é chamado a deixar crescer em si a força da fé, da esperança e do amor; tempo, para ansiar por Cristo como a esposa pelo esposo. Ele é para a Igreja o “mais belo entre os filhos dos homens”. Ele é, simplesmente, o Filho do Homem, o vindouro, o esperado e o desejado, cujo advento trará o triunfo da justiça no novo céu e na nova terra.
Os sinais que acompanham ou descrevem a cena indicam que o Reino de Cristo é universal. Por isso, “Ele enviará os anjos dos quatro cantos da terra e reunirá os eleitos de Deus de uma extremidade à outra da terra”. Este dito do evangelho enche de consolação os discípulos de Jesus em todos os tempos levando-os a viver não só de temor e de tremor, face ao retorno de Cristo, mas também de esperança. O mistério de Cristo não é só o “mysterium tremendum” (mistério que faz tremer), mas é, também, o “mysterium fascinans” (mistério que fascina e atrai). O nosso encontro definitivo com Cristo será não só como com o Juiz, mas, acima de tudo, como com o Mestre, o Amigo, o Esposo. Eis a nossa esperança!
O evangelho, portanto, em vez de um julgamento ou condenação por parte de Jesus, quer revelar, antes, e acima de tudo, o final, a consumação de toda a história: a aparição de Jesus como o homem novo, o novo Adão, o homem verdadeiramente humano, o homem universal, que inaugurará um novo céu e uma nova terra, em que habitará a justiça divina: Jesus Cristo crucificado (cf. 2 Pd 3, 13; Ap. 21,1). Este será seu “poder e seu esplendor”. Neste poder e esplendor todos poderão se espelhar e se julgar, ver sua verdade e sua mentira. Então estará implantada a verdade e a justiça acerca do homem e de sua história, o juízo, o julgamento de Deus.

3.3. O Filho do Homem está próximo – Uma lição a ser aprendida
Vem, então, a grande conclusão e a principal mensagem de todo este discurso: “Compreendei por uma comparação tirada da figueira. Quando os seus ramos vão ficando tenros e brotam as folhas, sabeis que está perto o verão. Assim também quando virdes acontecerem essas coisas, sabei que o Filho do Homem está próximo, às portas. Em verdade vos digo: não passará esta geração sem que tudo isso aconteça. Passarão o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão”.
Estamos diante do conhecido princípio evangélico esquecido durante muitos séculos por nós cristãos, mas redescoberto pelo Vaticano II, principalmente pelo Papa João XXIII, “estar atento aos sinais dos tempos”. Trata-se do mesmo princípio tão caro a São Francisco: “Mas atentem para que, acima de tudo, devem desejar ter o Espírito do Senhor e seu santo modo de operar; orar sempre a Ele com o coração puro; ter humildade e paciência na perseguição e na enfermidade” (RNB 10,9-10).
Ouçamos então a exortação dos Padres conciliares: “Movido pela fé de que o Espírito do Senhor enche o orbe da terra, o Povo de Deus esforça-se por discernir nos acontecimentos, nas exigências e nas aspirações de nossos tempos em que participa com outros homens, quais sejam os sinais verdadeiros da presença ou dos desígnios de Deus” (GS 11).
O cristão é o homem do futuro, não no sentido de alguém que fica esperando, passivamente, o futuro que lhe será dado após a morte, mas que vai construindo, como se fosse definitiva, a sua vida, sua família, sua história, sua casa comum, seu destino. Isto, porém, não a partir de si, de seus princípios ou projetos deste mundo, mas a partir de Cristo, de sua Boa Nova, de tudo o que Ele já fez e estabeleceu. Nada de substancialmente novo temos a esperar. Mas, também, é verdade, tudo está para ser feito. Ou seja, é preciso que toda a criação, toda a humanidade faça a sua páscoa, sua passagem do mundo para a esfera de Cristo no qual todas as coisas serão recapituladas como diz São Paulo: “Sabemos que até hoje, toda a criação geme e padece como em dores de parto. E não somente ela, mas igualmente nós, que temos os primeiros frutos do Espírito, também gememos em nosso íntimo, esperando com ansiosa expectativa, por nossa adoção como filhos, a redenção do nosso corpo” (Rm 8,22-23).
Jesus Cristo é «o Primeiro e o Último» (Ap 1, 17). Ele é quem dá à criação e à história o seu sentido definitivo (Cf. Verbum Domini, 14). No meio das instabilidades da história, o discípulo de Jesus se ancora em Cristo. A esperança é como que uma âncora. Cristo é a rocha em que está ancorada esta esperança. Neste sentido, diz o Papa Bento XVI: “Portanto, a economia cristã, como nova e definitiva aliança, jamais passará, e não se há de esperar nenhuma outra revelação pública antes da gloriosa manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo (cf. 1 Tm 6, 14; Tt 2, 13). … Ele, que nos deu a conhecer Deus (Jo 1, 18), é a Palavra única e definitiva confiada à humanidade». São João da Cruz exprimiu esta verdade de modo admirável: «Ao dar-nos, como nos deu, o seu Filho, que é a sua Palavra – e não tem outra – Deus disse-nos tudo ao mesmo tempo e de uma só vez nesta Palavra única e já nada mais tem para dizer (…). Porque o que antes disse parcialmente pelos profetas, revelou-o totalmente, dando-nos o Todo que é o seu Filho. E por isso, quem agora quisesse consultar a Deus ou pedir-Lhe alguma visão ou revelação, não só cometeria um disparate, mas faria agravo a Deus, por não pôr os olhos totalmente em Cristo e buscar fora d’Ele outra realidade ou novidade. (VD 14).

Conclusão
O viver cristão é essencialmente uma vida escatológica, ou seja, uma vida em que se luta, trabalha e se doa de corpo e alma para que o mundo, a história e a humanidade cheguem à gloria do homem novo, do novo céu e da nova terra inaugurada e conquistada por Cristo Crucificado em favor de todos.
Quem compreendeu viveu bem e testemunhou de modo admirável essa vida, sua vocação-missão, foi São Francisco. Por isso, ouvindo sua pregação e vendo nele o estilo de vida “do homem do século futuro”, “de um artista consumado” (1C 36-37), não eram poucas as pessoas que se sentiam interpeladas a romper o encantamento pelo estilo de vida do mundo e o procuravam para entrar num processo de conversão evangélica. “Por isso, a todos propunha uma Regra de vida e demonstrava de verdade o caminho da salvação em todos os graus” (idem).
Para Francisco, o momento presente é de penitência evangélica, isto é, de profunda motivação escatológica como vemos nesta citação: “E recordem-se do que diz o Senhor: Estai atentos, pois, para que vossos corações não se tornem pesados pela crápula e embriaguez e pelos cuidados desta vida e vos sobrevenha repentino aquele dia; pois, cairá como um laço sobre todos que habitam a face da Terra” (RNB 9,14-15).
Em outras palavras, Francisco, a partir de sua conversão que se inicia com o encontro com o Crucificado de São Damião e com o Evangelho do envio dos Apóstolos é o homem que se deixa conduzir por ”um espírito novo” (1C 89,6) que o constitui e o transforma em “novo evangelista dos últimos tempos” (1C 89,4), “o profeta do nosso tempo” (2C 54), “um homem novo e do outro mundo” (1C 82). Sua caminhada escatológica culmina no monte Alverne onde e quando recebe a graça dos sinais do Cristo Crucificado, princípio e origem de toda a escatologia, do novo Céu e da nova Terra, da nova História, o novo Adão, o novo Homem, o Homem de todos os homens. Diante desse testemunho conclui seu biógrafo: “Nele e por ele, o mundo conheceu uma alegria inesperada e uma santa novidade: a velha árvore da Religião viu reflorir seus ramos nodosos e raquíticos. Um espírito novo reanimou o coração dos escolhidos e neles derramou a unção de salvação ao surgir o servo de Cristo como um astro no firmamento, irradiando uma santidade nova e prodígios inauditos (1C 89,5-7).
Por isso, para Francisco, tanto a Ordem quanto a Igreja, em vez de viver voltada para si, deveriam ser uma assembleia de penitentes, de crentes em contínuo processo de conversão para a cristidade do cristianismo, isto é, para o Evangelho, o seguimento de Cristo, virados para Deus; uma comunidade escatológica de “peregrinos e forasteiros”, que vivem em meio às vicissitudes da história, “nada levando consigo a não ser o Cristo pobre e crucificado” (Atos, 4,3).

Fraternalmente,


Marcos Aurélio Fernandes e frei Dorvalino Fassini, ofm